abril 16, 2008

Das coisas engraçadas do silêncio

É engraçado participar de diálogos e conversas e estar assim num momento de silêncio forçado. As pessoas não percebem, mas o fato de não me ouvirem - e não olharem para os meus lábios enquanto eu tentava balbuciar alguma coisa sem que a voz saísse - fazia de mim um mero acessório, um enfeite, uma presença vazia, mas uma validação das conversas que elas continuavam por si mesmas, sem precisar muito de mim.

Uma pessoa me perguntou se eu estava rouca. E na mesma hora se deu conta do quão boba foi a pergunta, dizendo, mas que bobagem, claro que vc tá rouca. Acontece que eu respondi, disse, não, não estou rouca, isso é charme. Mas a pessoa não ouviu.

Outra pessoa me confessou estar adorando conversar comigo neste estado, porque não precisaria parar, me dar chance de responder, e mesmo que eu quisesse reclamar, a voz não sairia e ele não ouviria, e poderia continuar falando sobre o que quisesse.

Uma pessoa, um homem, comentou - querendo ser engraçadinho - que o meu namorado deveria estar bem contente de me ter naquela situação, e que ele apenas queria que a mulher dele pudesse ficar assim por uns dias. Machista, mas engraçadinho. E de repente a mulher dele fala sem parar e é ele quem tem que viver na terapia do silêncio a maioria dos dias, o que não faz dele uma pessoa ruim, apenas alguém que não é ouvido o suficiente.

Acontece que eu ouço. Geralmente eu sou boa ouvinte. E, devo confessar, quando é para falar de sentimentos - os meus, para ser mais específica - sou muito melhor ouvinte do que falante. E, às vezes, quando me meto a dar uma de conselheira, em alguns momentos continuo a ser melhor ouvinte do que falante.

Só que eu adoro falar. É horrível dizer, eu sei, mas eu gosto do som da minha própria voz. Vai ver que por dentro o som não fica tão ruim quanto deve ser ouvi-la sob a perspectiva das outras pessoas (em breve o programa Livro Aberto estará no youtube, aí vocês podem decidir por si mesmos), e isso me engana um pouco. E é disso que talvez eu esteja sentindo a maior falta. De me ouvir.

Mas o mais engraçado é ver as pessoas, nas lojas, meus colegas, clientes, todos, que conversam comigo e ouvem os meus rumores automaticamente baixam o volume de suas vozes e começam a sussurrar também, e chegam mais perto. Quase como se fosse um segredo. Num gesto automático, bem humano, de imitação. Quando elas se dão conta, estão quase quase se comunicando no mesmo nível de praticamente-sem-som que eu, sem perceber. Eu só posso rir.

E se isso tudo de ficar sem voz não estivesse começando a me incomodar, até poderia pensar em fazer um estudo sobre isso. Mas, ah, deixa pra lá.

Um comentário:

Pam Nogueira disse...

Blondie!
Isso me lembrou a conversa de ontem com a dani, eu disse que adoro o teu sotaque! zizizi
Me avisa quando o programa Livro Aberto estiver no youtube? Brigada!
Beijocas, minha flor