janeiro 16, 2008

Texto-presente: As Palavras















O texto abaixo eu ganhei de um amigo no meu aniversário. Eu achei tão lindo e emocionante, eu já tinha gostado antes, mas hoje ele me mandou por email, junto com uma mensagem dizendo que tinha encomendado pra mim um dvd com filmes da Pucca, pra alegria da five-year-old dentro de mim.

Especialmente hoje, num dia de chuva inesperada no meio da tarde e um espaço inimaginável de sem-palavras.


"As palavras pesavam. Escorriam pela mesa. Se dependuravam nos vasos pendurados ao teto. Batiam nas paredes. Caíam no piso, picavam, diluíam-se. Entravam e saíam das gavetas. Atravessavam as janelas de vidro. No lado de fora, defasavam-se. No lado de dentro, se derretiam. Eram engolidas pelas poltronas, pelas cortinas. Chocavam-se umas com as outras, pariam novas, tortas, desengonçadas. Multiplicavam-se. Misturavam-se. Nos cantos dos quartos elas sumiam. Na porta da sala, retornavam. Sentiam-se atraídas pelos livros das estantes. Da escrivaninha, eram caçadas. Fugiam, escamoteavam-se, voavam. Tomavam conta do lugar. Depois de um tempo, serenavam, gravitando próximo ao chão, cerração baixa, um tapete de letras, átomos, fina nuvem de signos e sons primordiais, dormindo. Até que os pés de uma menina, voltando do pátio, como pedras atiradas em um lago, novamente as acordasse, e elas tornassem a se espalhar, a se dar as mãos, a se unir e desunir, a saltar e celebrar pelo ilusório espaço da casa. Quando ela abria o caderno e pegava o estojo de canetas, fingiam ser capturadas. Gostavam mesmo era de se exibir, naquele palco branco e retangular, em um jorro ondulatório de danças ordenadas, gestos sinuosos e trajes multicores. "



É do Paulo Juner, meu vizinho de livro lindo. Obrigada, Paulo!

Um comentário:

Beatriz disse...

Que lindo o texto, Cris. Que presente bom.