setembro 06, 2007

Quase-normal

A pessoa que vejo no espelho não sou eu.

Parece bastante comigo, mas os olhos são mais cansados, as olheiras, mais profundas. Que eu me lembre, sempre tinha lá um lampejo de porvir animado espreitando, esperando realizar-se em muito glitter e cores. Esse ser aí na frente, olhando bem, tem o rosto como o meu, arredondadinho, meio torto, mas a pele está sem brilho, como se faltasse sol do lado de lá do espelho. E os cabelos? Sério, eu não saio de casa com os cabelos desgrenhados e bagunçados desse jeito, nem pensar! Sem falar no cansaço gritante, no desgaste visível, como se no visor - se houvesse um visor - a pilhazinha no canto direito mostrasse apenas meio tracinho, os últimos minutos de atividade antes de entrar em colapso, esgotamento absoluto das forças, desligamento do sistema.

Mas a pessoa que vejo no espelho sou eu. Estranha, irreconhecível, com cara de quem deve horas de ligações e emails e encontros e conversas - com assuntos outros que o livro, a prova do livro, a revisão do livro, o blablabla todo do livro - aos amigos, com cara de quem anda deixando pra fazer tudo na hora da ginástica (que compreende o período da meia-noite às seis da manhã, porque todos os outros períodos do dia, afinal, já estão tomados, e é um período de tempo precioso demais pra se gastar meramente dormindo), só que sem o pique dos tempos de monografia, com jeito de quem já correu os trinta quilômetros iniciais e começa a duvidar de si mesma sobre completar ou não a prova até a linha de chegada.

Sem falar de trabalho, de trajetos, de todas as outras coisas que acontecem ao longo do dia e atrapalham a realização daquilo que realmente importa, como aproveitar um dia de sol e passear no parque, sandália, vestido, sorvete, um livro preguiçosamente lido sob uma sombra, um piquenique, uma mesa na rua pra ver o movimento enquanto o café não chega.

Pelo visto, essa pessoa aí no espelho - me medindo, me olhando fundo nos olhos, notando meu cabelo que precisa urgentemente de um corte, que se parece muito comigo - não tem tido muito tempo pra essas coisas boas, tem se ocupado demais com problemas, com pensamentos, com planos que estão meio longe de se realizarem. E ela parece tanto comigo, mas não pode ser eu. Eu não me deixaria chegar a esse estado. De dormir pouco, de comer mal, de correr pra lá e pra cá por causa dos horários. Esse estado em que as pessoas ficam doentes, ou então casam, ou então têm filhos, ou então lançam suas obras de arte, e eu não sei, não fui, não vi, não estava lá porque não procurei, não mandei mensagem, não me interessei em saber.

Péssimo. Triste.

Pisco um olho. Infelizmente a imagem "quasímoda" também.

É, acho que sou eu. E acho bom eu ir dormir, e descansar, e botar uma cara na cor antes de sair de casa de novo.

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