julho 30, 2008

As agruras de uma boa foto




Agora que eu tenho que atravessar todos os dias a Praça da Alfândega, me deparo sempre com alguma situação inusitada, ou com algum personagem interessante.



Hoje, por exemplo, eu fiquei com medo de uma gigantesca aranha que parecia pairar no nada, em frente ao Santander, entre uma árvore e um prédio. Na ida, não dava tempo. e fiquei meio apreensiva, com o tempo ameaçando chover e sendo um pouco assustador.




Mas na volta, não resisti. Morri de medo. Mas não agüentei. Abri a mochila (morrendo de medo, mas fazendo a maior cara de blasé-não-sou-daqui-e-na-minha-terra-não-tem-isso-de-assalto), coloquei a bateria, voltei um pouquinho (cordinha no pescoço, sempre!) e dê-lhe tirar fotos. No automático, porque não ia dar tempo de ficar medindo a luz e coisa. Na última foto, flash, o que gerou um efeito interessante, ressaltando os olhos.


Como eu falei, o dia estava estranho, e a luz ficou prejudicada.


Mas aí eu já tinha minha foto. Não foram mais que quarenta, talvez cinqüenta segundos.


Quando estava virando a mochila, para abri-la, guardar a câmera, sair correndo, eis que um dos maconheiros (ok, de repente nenhum deles fume maconha, e não querendo ser preconceituosa, explico: moradores de rua, com cabelo dreadlocks, aspecto de sujo, camisetas variando entre os temas Bob Marley, Peter Tosh, Reggae, Maconha, podendo estar com as mãos ocupadas com um violão, e daí tocando reggae, ou com um alicate, e daí manipulando o - como chama mesmo? Sim, arame! - arame para fazer esses bichinhos, como a aranha pendurada em local inusitado, em bandos, vendendo esses bichinhos de arame e pequenos duendinhos de massa durepox que podem também ser usados, suspeitamente, como cachimbos, mas enfim, you get the picture.) começa a me chamar, ei, ei você, da foto, o que me fez virar o rosto, mas não parar de caminhar.


Aí vem a cena vídeo-cassetada. Viro o rosto para ver o que ele, maconheiro com alicate na mão, queria, e ele, muito lentamente, já se levantava e eu continuando a caminhar, movimentos entre guardar a câmera, segurar o guarda-chuva e o casaco e bater com o indicador direito no pulso esquerdo, querendo dizer "sorry", mas não sabendo o que dizer, e ainda vendo ele levantar a mão, como que apontando para a frente, me fazendo daí virar para frente, para me dar conta de bater de cara com um poste.


Eu fiquei tão nervosa, com medo de que o cara realmente estivesse vindo atrás de mim, talvez querendo me forçar a pagar pela foto, ou me obrigar a comprar algum daqueles objetos feitos por ele, e me assustei tanto com a batida (ai ai ai, que vergonha, será que não bati a câmera, que não caiu nada, que minha mochila está mesmo fechada, será que tem alguém olhando, cuidando, querendo me seguir, ai ai ai, ok, reagrupar e sair correndo) que nem vi o que ele estava falando, simplesmente baixei a cabeça, contornei o poste (e quem é que inventou de colocar um poste no meio da calçada da praça, hein, me diz?). O que me fez ter certeza de que ele é realmente consumidor de maconha, os movimentos lentos, e tudo, porque eu tava super perto dele, e com isso de não olhar pra frente, e parar por dois segundos para me reorganizar e morrer de vergonha e seguir em frente, bastava que ele estivesse numa velocidade um pouco mais normal e me alcançaria.






Mas daí, assim, eu olho para as fotos e, apesar de serem poucas, acho que valeu a pena. Tão desmiolada, que parece esta aranha, não?, assim pendurada no meio do nada por um fio quase invisível, como se a aranha herself fosse consumidora de maconha e pudesse, a qualquer momento, puxar o violão e puxar um No, Woman no Cry, que mesmo o medo, nervosismo, a batida no poste (ouch), que eu acho que valeu a pena.

E estou pronta pra outra!

4 comentários:

Ricardo Valente disse...

Gostei da escrita e das fotos. Parabéns, maluca hehehe (brincadeirinha)

A Autora disse...

Oi Ricardo, obrigada!

E pode chamar de maluca, que eu sou mesmo! Ehehehe

Volte sempre.

Alberto Ourique disse...

Incríveis as fotos Cris. E interessantíssimo o relato. Chapei!

Cissa disse...

Desculpa, Cris!
Tive que rir da tua "desgraça"!
É que eu tenho esse péssimo hábito de imaginar a cena! Principalmente na hora da aranha puxando o violão e etc... hahaha
bjo grande!

dA Leitora
(A Leitora que adora ler os textos dA Autora!)