março 17, 2008

Uma avertura no Alaska

Depois de um dia inteiro vendo episódios de 30 Rock, acabamos por ver, Boyfriend and I, um filme baseado numa história real.

Into the Wild mostra a jornada de um cara - um cara normal, recém formado, cheio de possibilidades, inteligente, simpático, bonito e educado - que resolve largar tudo, absolutamente tudo, para ir viver isoladamente no Alaska. É claro que o filme o mostra como querido e bonzinho e não obsecado e egoísta, mesmo não ligando para todos os apelos das pessoas que vai conquistando pelo caminho para que fique mais um pouco, para que não se isole tanto, para que tente encontrar o que procura um pouco mais perto das pessoas que o amam.

Christopher - interpretado pelo fofíssimo e talentoso Emile Hirsch -decide que só conseguirá se curar da influência negativa da sociedade (sim, porque até dinheiro ele queima!) se estiver longe dela, mas longe mesmo, tanto é que a maior parte do tempo ele passa sozinho, caminhando, seguindo, procurando, fugindo, sabe-se lá o que se passava na cabeça do moço, e só sossega quando encontra um lugar muito alto, afastado, nos confins do mundo, coberto de neve e sem chance de contato humano.

[SPOILER ALERT ON] As coisas começam a ficar complicadas, ele se dá conta de que não consegue fazer tudo sozinho. Quando caça um alce, por exemplo, ele não consegue tirar a pele e separar as partes do bicho e defumar a carne sozinho antes que as moscas a contaminem. Nem consegue manter a mente saudável, não tem com quem conversar, não tem com quê se entreter depois de ler os mesmos livros over and over and over again. Até que chega um ponto que, de tanto procurar a felicidade, e tentar abdicar de todo o desejo e civilização - porque lhe disseram os livros de que a Natureza lhe proveria de tudo que precisasse, e não precisaria de nada mais que alguma comida, um lugar a salvo da chuva, e literatura. E ele se dá conta, quando a comida acaba, quando a água acaba, quando ele se envenena com umas plantas e não tem a quem pedir ajuda, - pior! - quando tenta voltar pra casa e não consegue ultrapassar o rio que estava baixo no inverno e que agora tem uma correnteza que quase o mata, que não basta comida, abrigo, literatura, se não se tem alguém com quem dividir isso tudo. Mas aí é tarde demais para se dar conta de que a felicidade só existe quando é compartilhada. [SPOILER ALERT OFF]

Ok, é uma história bonita, da busca de um indivíduo por auto-realização, iluminação, ou qualquer coisa assim, mas é, ainda assim, uma história individualista e egocêntrica.

Em nenhum momento ele avisou os pais, ou se despediu da irmã. Sequer usava o nome verdadeiro, e picotou documentos e cartões. E não pensou na preocupação que as pessoas sentiriam ao passar dois anos sem ter notícias dele. E não pensou que poderia acontecer alguma coisa com ele e, isolado, ninguém ficaria sabendo. Ele apenas pensou no caminho que precisava trilhar, e seguiu por ele.

Não que não seja bonito ter tanta determinação, tanto foco, tanta força de vontade e disciplina. Mas assim, fica a pergunta - ao menos para mim - qual o sentido de ter ido até lá? Provar que podia? Ok, provou, e depois? Ah, não era só isso, era para dar um tapa na cara da sociedade, então. [SPOILER ALERT ON] Bem, digamos que morrer sozinho de fome e sede e frio, num lugar isolado, para ter seu corpo encontrado duas semanas depois da sua morte não é a maneira mais adequada de chocar a sociedade ou chamar a atenção para algum problema existencial-filosófico. Mas, se não fosse isso, se ele tivesse mesmo voltado e encontrado os pais, e ter feito algo com essa sua experiência, sua aventura, de repente a mensagem poderia ser mais abrangente. Talvez não tão forte e impactante quando sua morte, mas ainda assim, ao menos para mim, seria mais cheia de sentido.[SPOILER ALERT OFF]

De qualquer forma, assistam. É bonito e tem algumas mensagens importantes.

2 comentários:

Vica disse...

Eu fiquei com mais vontade de ler esse livro (embora eu tenha uma vaga lembrança de ter lido), do que de ver o filme... a trilha é ótima!

Fabrício disse...

Cara blogueira, Li o seu texto e achei muito boa suas observações. Agora discordei de alguns pontos que me fizeram escrever este comentário para construir os pontos vagos de sua opinião quase completa e a qual, acredito que por uma limitação experimental não te faz compreender.
No caso de Supertramp, sim, ele pode ter sido um egocêntrico, pensado somente em sí durante toda a viagem, e no final, finalmente, descobriu que a vida não contava com a felicidade apenas sozinho. Ae, eu toco no ponto em que te deixou perdida na história, eu acredito, sim, que ele tenha mudado sua idéia, e tentado voltar a civilização, encontrar seus pais e irmã e tentar usar a experiência de viagem para mudar tudo. Porém, a própria natureza que antes vital, encarregou-se de abraçar o aventureiro para nunca mais ele pudesse ter tido a chance de revelar suas futuras intenções.
Esse pode ter sido o motivo dele ter ido até lá, às vezes, sentimos um cansasso existencial e temos a perspectiva de um futuro infeliz, mesmo com tudo que qualquer ser humano ambicioso desejaria, uma carreira profissional monótona e frustrante que o fim nos tornaríamso fracos e velhos sem motivos para mover nossos trazeiro de onde viveríamos. Isso nos faz largar tudo e buscar as respostas pra tudo ou a alternativa de vida que nos faria conviver com isso.
Digo isso por experiência própria, tenho uma vida de classe média alta, curso uma promissora carreira de engenharia civil, o qual larguei no meio do curso por uma frustração inquietante, uma convivência conturbada com meus pais, o qual larguei tudo e fui morar no outro lado do mundo, quando voltei, pude dar valor a tudo e compreender com toda calma e experiência que absorví durante a viagem, inclusive adotei sobrenomes fictícios para as diversas etapas dessa viagem até hoje como um modo de expressar euforia ou situações espirituais que me encontrava. Hoje, faltam 2 anos pra me formar, e devo tudo a essa experiência de vida. Espero ter contribuído com seu excelente texto. Parabéns