março 13, 2008

Pode até parecer fútil

Mas ninguém sabe a complexidade de estar em mim, ninguém pode entender a minha aflição.


Minha câmera não está funcionando direito. Precisa de reparos, de cirurgia. Precisa ficar longe de mim e sofrer intervenções nas mãos de pessoas desconhecidas cujo envolvimento com ela e conhecimento da importância que ela tem pra mim são nulos.


Tenho medo.


Sempre que algum objeto meu eletro-eletrônico precisou passar por isso - consertos, troca de peças, qualquer intervenção cujo processo eu não compreendo - me pareceu sempre meio off, meio frankenstein, como se alma da coisa toda tivesse sido alterada.


Tenho medo.


O meu primeiro presente memorável foi uma vitrola portátil, laranja. Nela eu escutava meus disquinhos com os livrinhos pra acompanhar e afirmaria com certeza que foi assim que aprendi a ler, lá com uns três, quatro anos, se pudesse me lembrar (e, claro, se minha família não agisse como se eu já tivesse nascido lendo, eheheheh, e por isso não existe um "momento de aprender a ler", mas já tergiverso, pra variar, e não é sobre isso que quero escrever). Ela nunca estragou, e eu ainda a tenho, e apesar de não tê-la usado há muito, sei que pode vir a funcionar perfeitamente.


Já o meu segundo presente memorável, e que vem a se encaixar na narrativa que tento aqui construir, foi uma câmera fotográfica. Uma Kodak, nada muito fancy, era portátil e automática, e tinha flash e tinha algum zoom, nada de macros e efeitos e possibilidades de programar obturador e diafragma. Tinha treze anos e o mundo se coloriu. Qualquer dinheiro que eu tinha ia para filmes e revelações, e uma boa parte dos momentos memoráveis da minha tão-curta-and-yet-tão-intensa vida foram clicados com ela, adorável Kodak. Que estragou no meio da minha viagem para Portugal (com uma e outra coisa que também estragaram lá na viagem, seja por reflexão, seja por confrontamento, mas, de novo, não é o que cabe aqui no momento. Sigamos.) e, pelo mesmo medo que sinto neste momento, permaneceu estragada, permaneceu sem funcionar, mas ao menos permaneceu. Porque eu odiaria que ela fosse mandada para a assistência técnica e voltasse alterada, manipulada, e estou pensando agora em escrever profanada - e mesmo sabendo do total exagero da palavra - é isso que penso.


E agora isso. Agora mais isso. Listras aparecem em todas as imagens que tiro, e isso é horrível. Bem, em quase todas (na foto abaixo, da taça de champagne, vocês não repararam? Pois, tem listras ali...), porque dependendo do efeito que seleciono, as listras não aparecem, mas mesmo assim, não é pra aparecerem de jeito nenhum. A menos que eu queira.


Desde ontem, quando me deparei com as manchas horizontais e a distorção total das imagens que eu precisava, estou meio apreensiva. Muito apreensiva. Assistências técnicas me dão tanto medo quanto bueiros. Bem, talvez não tanto, as ruas estão super-populadas de bueiros, e eventualmente eu passo por um e outro, aqui e ali. E tenho bem menos momentos de confrontação com as A.T., mas acho que justamente por isso a impressão de que o estrago vai ser bem pior é mais forte.


Hoje fui à loja onde comprei a câmera, e onde contratei a garantia extendida. Na época não me pareceu tão importante, e não custava muito, e pensei, oh, what the heck! Não pode fazer mal. Pois bem. Depois de ligar para a assistência técnica, e conversar com a moça - super atenciosa e prestativa, que ouviu o problema, ouviu as minhas lamentações e trouxe o breve alívio da explicação - e ver que se fosse pagar do meu bolso poderia doer mais, estava achando uma ótima idéia a contratação desse seguro. Até chegar na loja e o gerente me explicar que eu devo ligar para um 0800 e esperar que eles entrem em contato, e ir na loja que eles me indicarem e aguardar o diagnóstico - chama parecer técnico, mas, pobre Camera, está doentinha! - e ver se eles aprovam. E daí, dependendo do custo, eles podem simplesmente me dar uma câmera nova. E o gerente me diz isso super contente, numa empolgação, como se dissesse "olha, se o teu passarinho não cantar, ou se ele morrer quando tu chegar em casa, volta aqui e a gente te dá um novo. Da mesma cor, tá, e vai parecer quase o mesmo!"


Hmpf. E se eu não quiser outro passarinho? E se eu não quiser um passarinho que cante mais ou que cante diferente. E se eu apenas quiser que o meu passarinho, que eu passei tanto tempo escolhendo e decidindo e creating a bond with it (porque, sim, se você que está aí e que chegou até aqui não percebeu ainda, o grau de loucura é altíssimo, e dizem que isso de personalizar objetos, dar nomes e se apegar como se fossem seres vivos é um dos mais fortes indícios de sérios transtornos mentais, mas, hei, se você ainda não notou é porque, de repente, ache normal, e se acha normal provavelmente é porque também tem essa atitude perante seu carro, seu travesseiro, seu celular - o objeto de sua preferência! - e se você tem um nome para sua escova de cabelo, ou suas bolsas, bem, entre, sinta-se à vontade, é realmente incrível que as pessoas se encontrem por suas similaridades nesse mundo tão gigante.), será que eu não posso simplesmente ter o meu passarinho de volta? Que eu já conheço, com o qual já estou acostumada, de quem já conheço os botões e os atalhos e já entendo o funcionamento? E se for pra me dar um novo, será que eu ao meos tenho o direito de escolhê-lo?


Tenho medo.



I miss her already. E nem sei ao certo o que irá acontecer. Amanhã ligo pro 0800. Aguarde, vêm aí fortes emoções.

7 comentários:

camel disse...

cris,

se ela precisar de sangue, avisa que a gente ajuda!

beijo!

Vica disse...

Eu era assim como tu. Não sou mais. Minha outra câmera digital se afogou no mar de Pernambuco e eu nem tentei arrumar. Esperei um pouco e comprei outra, com a qual estou muito satisfeita. Como diz a minha irmã: a gente tem que se desapegar.

Pam Nogueira disse...

AHAHHAHAHAHAHAHAHA
Eu ri demais na parte do bueiro porque eu lembrei da dani me contando isso, hahahahahaaha!
E fiquei meio assustada com a história de "mas, hei, se você ainda não notou é porque, de repente, ache normal, e se acha normal provavelmente é porque também tem essa atitude perante seu carro, seu travesseiro, seu celular - o objeto de sua preferência!". hahahahaha
Eu prefiro não te contar minhas últimas experiências com conserto de câmeras e tudo =(
Melhoras pro teu passarinho! hehehe
Bacione, minha flor!!!
=*********

Dona da Linguagem disse...

Camel, obrigada! Não é por agora que tu vai estar por aqui de novo?

Vica, a tua irmã tem razão. E já andei conversando ao vivo com uma amiga, e ela me disse que estaria dando pulos de alegria com a possibilidade de uma nova camera, em vez de uma modificada, manipulada pelas mãos insensíveis dos técnicos. Começo a ver o sentido nisso. Quanto ao desapego, a gente já se desapega de tanta coisa nessa vida, desapegar-se do registro, da extensão da memória (que é uma das formas que eu entendo as cameras fotográficas) é tão difícil!

Pam, quando é que tu vem pra gente fugir dos bueiros de Porto Alegre?? Ehehehehehe

Vica disse...

Ah, perder as fotos é mesmo difícil. Mas a câmera, e só comprar uma nova.

camel disse...

cris, os meus posts vêm e vão...

e, sim, estarei em poa depois da páscoa até dia 13/04, mais ou menos!

boa sorte na escolha da nova câmera, se tiver que ser assim.

beijo!

camel disse...

veio com nome da fábrica: nicolas - ou nico, para os íntimos.

sim, meu aniversário está chegando (dia 06)... provavelmente eu vá pro shamrock, mas as pessoas serão devidamente convocadas.

podemos fazer coisas, sim!!